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Canabinoides 101

Tudo o que precisa de saber sobre o que são os canabinoides, como atuam e por que motivo são importantes: da química da planta ao sistema endocanabinoide que já existe dentro de si.

Canabinoides 101

1. O que são os canabinoides?

Os canabinoides são uma classe de compostos químicos que interagem com uma rede de recetores distribuída por todo o corpo humano e sistema nervoso. São mais conhecidos pela sua presença na planta da cannabis, mas a história é bem mais profunda do que isso.

Só na Cannabis sativa, os cientistas já identificaram mais de 100 canabinoides distintos. Cada um tem uma forma molecular ligeiramente diferente, e é essa forma que determina como interage com os recetores do seu corpo, que efeitos produz e qual a intensidade desses efeitos.

Existem três tipos de canabinoides, e vale a pena compreender os três desde já:

  • Fitocanabinoides: produzidos naturalmente pelas plantas, sobretudo pela Cannabis sativa, mas também presentes em pequenas quantidades na pimenta-preta, na equinácea e no cacau.
  • Endocanabinoides: produzidos pelo próprio corpo humano, conforme a necessidade. São as moléculas de sinalização nativas do seu organismo para este mesmo sistema de recetores.
  • Canabinoides sintéticos: criados em laboratório, seja para fins farmacêuticos, seja, nas suas formas perigosas, como drogas recreativas.

Quando a maioria das pessoas fala em canabinoides, refere-se aos fitocanabinoides e, mais especificamente, aos derivados do cânhamo. Os dois mais conhecidos são o CBD (canabidiol) e o THC (tetra-hidrocanabinol). À medida que a investigação avança, porém, um número crescente de canabinoides minoritários, entre os quais o CBG, o CBN, o CBC e o THCV, tem despertado um interesse científico e comercial cada vez mais sério.

2. Como são produzidos os canabinoides?

Compreender como a planta da cannabis sintetiza os canabinoides ajuda a explicar por que motivo os diferentes produtos de cânhamo têm aspetos, aromas e comportamentos tão distintos entre si, e por que motivo as flores de cânhamo em estado bruto, sem qualquer aquecimento, contêm compostos diferentes dos de um óleo de CBD.

O ponto de partida: o CBGA

Todos os canabinoides começam a sua existência como ácido canabigerólico (CBGA), por vezes chamado o “canabinoide-mãe”. O CBGA forma-se a partir de dois precursores mais simples, o ácido olivetólico e o pirofosfato de geranilo, através de uma reação química que ocorre no interior dos tricomas da planta (os pequenos pelos glandulares que cobrem as flores e as folhas).

A partir do CBGA, enzimas específicas da planta convertem-no em três precursores ácidos principais:

  • CBDA (ácido canabidiólico): precursor do CBD
  • THCA (ácido tetra-hidrocanabinólico): precursor do THC
  • CBCA (ácido canabicroménico): precursor do CBC

Todo o CBGA que não é convertido por estas enzimas pode, por si só, transformar-se em CBG através da descarboxilação.

Descarboxilação: a ativação dos canabinoides

No seu estado bruto e natural, os canabinoides existem sob a forma de ácidos: o CBDA não é o mesmo que o CBD, e o THCA não é psicoativo da forma como o THC é. A transformação da forma ácida para a forma ativa ocorre através da descarboxilação, processo em que se remove um grupo carboxilo (COOH), com libertação de CO₂.

Este processo ocorre naturalmente quando o material vegetal da cannabis é:

  • Aquecido (ao fumar, vaporizar ou cozinhar)
  • Exposto à luz ou ao ar durante longos períodos (um processo mais lento, que ocorre ao longo do tempo)

É por isso que os óleos de CBD feitos a partir de extrato de cânhamo costumam ser descarboxilados durante o processamento, para garantir que o CBD fica na sua forma ativa e utilizável. É também por isso que a folha crua de cânhamo, usada em sumos ou cápsulas, contém CBDA em vez de CBD, e por que motivo alguns produtos são formulados especificamente para preservar as formas ácidas na sua origem.

3. O sistema endocanabinoide

O sistema endocanabinoide (SEC) é um dos sistemas reguladores mais amplos e importantes do corpo humano. Ainda assim, só foi descoberto no início da década de 1990, um período relativamente recente em termos científicos, o que explica por que motivo continua menos estudado do que sistemas como o cardiovascular ou o nervoso.

O SEC assenta em três componentes principais:

  1. Endocanabinoides: moléculas de sinalização produzidas pelo seu próprio organismo
  2. Recetores canabinoides: proteínas presentes na superfície das células, às quais se ligam os endocanabinoides e os fitocanabinoides
  3. Enzimas: responsáveis por sintetizar os endocanabinoides quando são necessários e por os degradar assim que cumprem a sua função

Recetores CB1

Os recetores CB1 encontram-se predominantemente no cérebro e no sistema nervoso central, em particular nas áreas responsáveis pela memória, pela coordenação, pelo processamento da dor e pelo apetite, sendo, no seu conjunto, um dos tipos de recetores mais abundantes no cérebro. Quando o THC se liga aos recetores CB1, produz os característicos efeitos psicoativos da cannabis. Já o CBD tem uma afinidade muito baixa com estes recetores, razão pela qual não provoca intoxicação.

Recetores CB2

Os recetores CB2 distribuem-se sobretudo pelo sistema imunitário e por tecidos periféricos, incluindo o intestino, o baço, o fígado e a pele, desempenhando um papel fundamental na regulação da inflamação e da resposta imunitária. Os compostos que atuam sobre estes recetores despertam particular interesse na investigação sobre doenças inflamatórias.

Para além do CB1 e do CB2

A investigação já revelou que os canabinoides interagem com um leque mais amplo de recetores, para além dos dois recetores canabinoides clássicos:

  • TRPV1 (recetor de potencial transitório vanilóide 1): envolvido na sinalização da dor e na regulação da temperatura corporal. O CBD é um agonista conhecido deste recetor.
  • 5-HT1A (recetor de serotonina): relevante para a regulação do humor e da ansiedade. Já se demonstrou que o CBD ativa este recetor, o que pode explicar, em parte, os seus efeitos sobre a ansiedade.
  • GPR55, por vezes chamado o “terceiro recetor canabinoide”: envolvido na densidade óssea, na pressão arterial e na dor.
  • PPARγ: um recetor nuclear envolvido no metabolismo, na inflamação e na proliferação celular.

O que faz, na prática, o SEC?

O SEC é por vezes descrito como um regulador central, um sistema que ajuda a manter o equilíbrio do corpo (homeostase). Tem um papel documentado em:

  • Dor e inflamação
  • Humor e resposta emocional
  • Memória e aprendizagem
  • Apetite e metabolismo
  • Ciclos de sono
  • Função imunitária
  • Resposta ao stress
  • Neuroproteção

Há uma particularidade importante: ao contrário da maioria dos sistemas de neurotransmissores, o SEC funciona ao contrário. Quando um neurónio pós-sináptico fica sobreativado, envia endocanabinoides de volta para o neurónio pré-sináptico, para abrandar o sinal. Esta sinalização retrógrada coloca os canabinoides numa posição única, funcionando como uma espécie de sistema de travagem biológico.

4. Fitocanabinoides: os principais protagonistas

Segue-se um perfil dos canabinoides mais relevantes presentes no cânhamo e na planta da cannabis em geral.

CBD (canabidiol)

O CBD é o canabinoide dominante no cânhamo legal e o composto não intoxicante mais estudado da planta. Não se liga fortemente aos recetores CB1 ou CB2 no sentido clássico. Em vez disso, modula o SEC de forma indireta: inibe a enzima FAAH (responsável por degradar a anandamida, um endocanabinoide), ativa os recetores TRPV1 e 5-HT1A e atua como modulador alostérico negativo do CB1, o que, na prática, significa que pode reduzir os efeitos do THC quando os dois estão presentes em simultâneo.

A investigação sobre o CBD é mais avançada do que a de qualquer outro canabinoide. A evidência clínica mais sólida diz respeito à epilepsia: o medicamento Epidiolex, à base de CBD purificado, está aprovado pela FDA norte-americana para duas formas raras de epilepsia infantil (síndrome de Dravet e síndrome de Lennox-Gastaut). Para além disso, existe um vasto corpo de investigação pré-clínica e em humanos a explorar o CBD no contexto da ansiedade, do sono, da inflamação, da dor e da neuroproteção.

Enquadramento legal: na UE, os produtos de CBD derivados de variedades de cânhamo aprovadas podem ser vendidos legalmente como suplementos alimentares, desde que cumpram o regulamento relativo a novos alimentos e contenham um teor de THC inferior ao limite definido a nível nacional (normalmente entre 0,2% e 0,3%).

THC (delta-9-tetra-hidrocanabinol)

O THC é o principal canabinoide psicoativo da cannabis. Liga-se de forma direta e forte aos recetores CB1 do cérebro, produzindo os efeitos intoxicantes associados à marijuana. Na planta do cânhamo, está presente apenas em quantidades vestigiais: o limite legal na UE é de 0,3% na flor seca, e os produtos finais têm normalmente de conter menos de 0,2% (este valor varia consoante o país).

Apesar da sua reputação, o THC também é objeto de investigação médica legítima e é o princípio ativo de medicamentos aprovados: para as náuseas (dronabinol) e, em terapia combinada, para a espasticidade associada à esclerose múltipla (Sativex, que contém uma proporção de 1:1 entre THC e CBD).

Enquadramento legal: substância controlada acima dos limites definidos, na maioria das jurisdições. Presente apenas em quantidades vestigiais nos produtos de cânhamo legal.

CBG (canabigerol)

Sendo o produto direto da descarboxilação do CBGA (o “canabinoide-mãe”), o CBG ganhou o seu próprio estatuto enquanto molécula precursora. Numa planta de cannabis madura, a maior parte do CBGA já foi convertida noutros canabinoides, pelo que o CBG costuma estar presente em pequenas quantidades, a menos que a planta tenha sido especificamente selecionada para o reter. Já existem variedades de cânhamo desenvolvidas para um teor elevado de CBG, o que está a impulsionar uma nova geração de produtos como as gotas de CBG e o isolado de CBG.

O CBG interage tanto com os recetores CB1 como com os CB2 e inibe também a recaptação do GABA, um neurotransmissor calmante. A investigação pré-clínica tem explorado o seu potencial antibacteriano, anti-inflamatório e neuroprotetor, mas os dados clínicos em humanos ainda são limitados, embora estejam a crescer.

Enquadramento legal: não classificado como substância controlada na maioria das jurisdições; legal em produtos derivados de cânhamo na UE.

CBN (canabinol)

O CBN forma-se à medida que o THC oxida ao longo do tempo: é, no fundo, THC envelhecido. Uma flor de cânhamo exposta ao calor, à luz ou ao ar vai acumulando CBN gradualmente. Apesar desta origem, o CBN tem propriedades psicoativas muito fracas e é geralmente considerado não intoxicante nos níveis encontrados nos produtos de cânhamo.

O CBN tem despertado interesse sobretudo na área do sono, com base em investigação preliminar e relatos anedóticos. No entanto, a evidência clínica em humanos ainda é escassa, e grande parte da afirmação popular de que “o CBN é o canabinoide do sono” assenta em estudos pequenos ou pré-clínicos. Mostra também algum potencial como agente antibacteriano.

Enquadramento legal: geralmente legal em produtos derivados de cânhamo; raramente classificado de forma independente do THC.

CBC (canabicromeno)

O CBC é, na maioria das variedades de cannabis, o terceiro canabinoide mais abundante, depois do THC e do CBD, ainda que costume surgir em pequenas quantidades. Não se liga de forma significativa aos recetores CB1 ou CB2, interagindo antes com outros alvos, como o TRPV1 e o TRPA1, ambos envolvidos na sinalização da dor.

Em contexto pré-clínico, o CBC tem sido estudado pelas suas propriedades anti-inflamatórias, antidepressivas e neuroprotetoras, despertando particular interesse quando combinado com outros canabinoides (o efeito entourage). Tal como o CBG, continua pouco estudado em humanos.

Enquadramento legal: não classificado; legal em produtos derivados de cânhamo.

THCV (tetra-hidrocanabivarina)

O THCV tem uma estrutura molecular semelhante à do THC, mas com uma cadeia lateral mais curta, o que altera a forma como interage com os recetores CB1. Em doses baixas, pode atuar como antagonista do CB1 (bloqueando efeitos), enquanto em doses mais elevadas tende a comportar-se como um agonista fraco. Isto tem despertado interesse no THCV enquanto ferramenta potencial para a regulação do apetite, o controlo da glicemia e a gestão do peso.

Está presente em concentrações muito baixas na maioria das variedades de cânhamo e só assume relevância em variedades específicas de cannabis africana. É um dos canabinoides mais difíceis de obter em quantidades significativas.

Enquadramento legal: ambíguo nalgumas jurisdições. Devido à sua semelhança estrutural com o THC, está sujeito a um maior escrutínio regulamentar em vários países.

CBDA e THCA: as formas ácidas em estado bruto

Estes precursores ácidos (o “A” corresponde a ácido) despertam um interesse cada vez maior por mérito próprio, e não apenas como formas intermédias. Em modelos pré-clínicos, o CBDA revelou propriedades antináuseas e ansiolíticas, com uma potência que pode até superar a do próprio CBD em determinados alvos recetores. Já o THCA, apesar de não ser psicoativo na sua forma bruta, mostrou propriedades anti-inflamatórias e neuroprotetoras em investigação preliminar.

Os produtos concebidos para preservar os ácidos canabinoides em estado bruto têm de evitar o calor e costumam ser armazenados de forma diferente dos óleos de CBD convencionais. As nossas flores de cânhamo contêm o espetro completo de ácidos canabinoides na sua forma natural e não processada.

5. Endocanabinoides: a versão produzida pelo seu próprio corpo

Os fitocanabinoides fascinam, em parte, porque funcionam de forma tão eficaz no corpo humano, e a razão para isso é simples: o nosso organismo já possui um sistema construído em torno de moléculas equivalentes, produzidas por nós próprios.

Os dois principais endocanabinoides são:

Anandamida (AEA)

O seu nome vem da palavra sânscrita ananda, que significa “êxtase”, e foi o primeiro endocanabinoide a ser descoberto, em 1992, pela equipa de Raphael Mechoulam. Liga-se aos recetores CB1 e desempenha um papel na regulação do humor, na memória, na sensação de dor e até nas alterações neurológicas associadas à conhecida “euforia do corredor”, que os investigadores acreditam hoje dever-se mais à anandamida do que às endorfinas.

A anandamida é produzida conforme a necessidade e degradada rapidamente pela enzima FAAH. Como o CBD inibe esta enzima, prolonga, na prática, o tempo em que a anandamida permanece ativa no organismo. Este é um dos principais mecanismos através dos quais o CBD pode influenciar, de forma indireta, o humor e a perceção da dor.

2-araquidonoilglicerol (2-AG)

O 2-AG está presente no cérebro em concentrações muito superiores às da anandamida e é o principal ligando endógeno (molécula de ligação) tanto para os recetores CB1 como para os CB2. Desempenha um papel central na neuroproteção, na regulação do apetite e na função imunitária, sendo degradado pela enzima MAGL (monoacilglicerol lipase).

Deficiência clínica de endocanabinoides (DCE)

Alguns investigadores, nomeadamente o Dr. Ethan Russo, propuseram a teoria da deficiência clínica de endocanabinoides: a hipótese de que algumas pessoas têm um SEC cronicamente hipoativo, o que poderia contribuir para quadros como a enxaqueca, a fibromialgia e a síndrome do intestino irritável. Trata-se, para já, de uma hipótese e não de um diagnóstico clínico estabelecido, mas oferece um enquadramento teórico para explicar por que motivo os canabinoides de origem vegetal podem trazer alívio a algumas pessoas com estas condições.

6. Canabinoides sintéticos

Nem todos os canabinoides têm origem nas plantas ou no nosso próprio organismo. Vale a pena compreender bem duas categorias de canabinoides sintéticos, que são muito diferentes entre si.

Sintéticos farmacêuticos

Os canabinoides farmacêuticos legítimos foram desenvolvidos para tratar condições médicas específicas. Incluem o dronabinol (THC sintético, usado para as náuseas induzidas pela quimioterapia e para a perda de apetite associada à SIDA), a nabilona (um análogo do THC usado para as náuseas) e os nabiximóis (Sativex, um extrato botânico normalizado como medicamento). São medicamentos sujeitos a receita, rigorosamente regulados e utilizados sob supervisão médica.

Canabinoides sintéticos perigosos

Vendidos muitas vezes como “incenso de ervas” ou “highs legais”, sob marcas como Spice, K2 ou Mamba, tratam-se de compostos completamente diferentes, geralmente concebidos para imitar o THC, mas com uma ligação aos recetores muito mais forte e imprevisível. Têm sido associados a reações adversas graves, psicose, eventos cardíacos e mortes. Não têm qualquer relação com os canabinoides derivados do cânhamo e nunca devem ser confundidos com eles.

7. O efeito entourage

Um dos conceitos mais discutidos, e mais debatidos, na ciência dos canabinoides é o chamado efeito entourage: a hipótese de que os canabinoides, os terpenos e outros compostos da planta atuam melhor em conjunto do que qualquer composto isolado.

O conceito foi desenvolvido de forma mais aprofundada pelos doutores Raphael Mechoulam e Ethan Russo. No seu influente artigo de 2011 na British Journal of Pharmacology, Russo defendeu que a diversidade fitoquímica da cannabis confere aos extratos de planta inteira um espetro de ação terapêutica mais amplo do que o CBD ou o THC isolados. A teoria sugere que terpenos como o mirceno, o limoneno e o beta-cariofileno modulam e potenciam os efeitos dos canabinoides, sendo de destacar que o próprio beta-cariofileno é um agonista do CB2.

O que diz, na realidade, a evidência científica

É importante manter aqui uma visão equilibrada. O efeito entourage é biologicamente plausível e está sustentado por um conjunto de estudos pré-clínicos, em animais e em células. No entanto, a evidência clínica sólida em humanos, que compare diretamente extratos de espetro completo com isolados, continua limitada. Vários ensaios sobre o tratamento da epilepsia recorreram a extratos de planta inteira, e um número crescente de investigadores apoia o princípio da sinergia botânica. Dito isto, a ideia de que o espetro completo é sempre superior ao isolado, para qualquer pessoa e qualquer utilização, é uma simplificação excessiva.

O que a teoria do entourage sugere, com um consenso científico razoável, é que a complexidade química do cânhamo é mais do que a soma das suas partes, e que descartar os canabinoides e terpenos minoritários em favor do CBD puro pode eliminar componentes potencialmente úteis.

8. Canabinoides e o corpo: o que diz a investigação?

Segue-se um resumo honesto, organizado por nível de evidência, do que a ciência atualmente sustenta.

Evidência clínica sólida

A epilepsia é a área com a evidência mais robusta. O Epidiolex (CBD purificado) está aprovado tanto pela FDA norte-americana como pela EMA europeia para a síndrome de Dravet e a síndrome de Lennox-Gastaut. Em ensaios clínicos, reduziu de forma significativa a frequência das crises, em comparação com o placebo. Trata-se de uma evidência marcante: um composto canabinoide licenciado como medicamento sujeito a receita, com base em ensaios de Fase III.

Evidência moderada e em crescimento

A ansiedade está entre as aplicações mais estudadas fora do contexto da epilepsia. Vários estudos controlados em humanos demonstraram que o CBD pode reduzir a ansiedade em contextos de perturbação de ansiedade social, em tarefas de discurso público e em modelos de ansiedade generalizada. Um estudo de 2019 (Shannon et al.), muito citado e publicado na The Permanente Journal, verificou que 79% dos doentes relataram uma redução dos níveis de ansiedade durante o primeiro mês de suplementação com CBD. Os próprios autores sublinham que se trata de resultados promissores, mas preliminares, e que ainda são necessários ensaios controlados e aleatorizados.

O sono está intimamente ligado à ansiedade, e vários estudos registaram melhorias na qualidade do sono com o uso de CBD, sobretudo em doentes cujos problemas de sono eram secundários à ansiedade. A evidência do CBD como tratamento primário do sono em pessoas saudáveis é, no entanto, menos consistente.

A dor e a inflamação estão entre os motivos mais comummente citados para o uso de CBD, e a evidência pré-clínica é substancial. A evidência clínica em humanos está a crescer, mas é mais heterogénea. Vários estudos registaram uma redução significativa da dor em doentes com dor crónica, e o produto combinado Sativex (CBD + THC) demonstrou eficácia, em ensaios clínicos, para a dor neuropática e a espasticidade associada à esclerose múltipla.

Investigação em fase inicial e pré-clínica

Neuroproteção: em modelos celulares e animais, o CBD mostrou propriedades neuroprotetoras em condições como a doença de Alzheimer, a doença de Parkinson e as lesões cerebrais traumáticas. Os ensaios em humanos encontram-se ainda numa fase muito inicial.

Condições cutâneas: os canabinoides tópicos revelaram efeitos anti-inflamatórios em investigação sobre acne e psoríase, estando atualmente em curso vários ensaios clínicos na área da dermatologia.

Dependência e consumo de substâncias: a evidência preliminar sugere que o CBD pode reduzir o desejo intenso desencadeado por estímulos em pessoas com perturbação por uso de opioides. Um ensaio duplamente cego, aleatorizado e controlado por placebo, conduzido por Hurd et al. em 2019 e publicado na The American Journal of Psychiatry, verificou que o CBD reduziu de forma significativa o desejo desencadeado por estímulos e a ansiedade em indivíduos abstinentes com perturbação por uso de heroína. Os investigadores observaram ainda reduções em marcadores fisiológicos de stress, incluindo a frequência cardíaca e os níveis de cortisol.

Aviso importante: ao abrigo da legislação da UE (e da maioria das jurisdições), os produtos de canabinoides vendidos como suplementos alimentares não podem fazer alegações médicas específicas. Nada nesta página deve ser interpretado como aconselhamento médico ou como uma alegação de que os canabinoides diagnosticam, tratam ou curam qualquer doença. Se tiver uma condição médica, consulte sempre um profissional de saúde qualificado.

9. Tipos de extratos de canabinoides

Esta é uma das distinções mais importantes, do ponto de vista prático, para quem compra produtos de canabinoides.

Espetro completo Espetro largo Isolado
CBD Sim Sim Sim
Outros canabinoides Sim (CBG, CBN, CBC, etc.) Sim (sem THC) Não
Terpenos Sim Sim (normalmente) Não
THC Vestígios (até 0,2%) Não detetado Nenhum
Efeito entourage Potencial máximo Parcial Nenhum
Risco em testes de despiste Baixo, mas possível Muito baixo Mínimo
Indicado para Máximo benefício da planta inteira Pessoas sensíveis ao THC Dosagem precisa, sensibilidades

Os extratos de espetro completo preservam a totalidade do perfil de canabinoides e terpenos presentes na planta original. Contêm vestígios de THC, normalmente abaixo dos 0,2% nos produtos legais na UE. Para a maioria das pessoas, este nível de THC não representa qualquer risco psicoativo nem risco relevante em testes de despiste de drogas, embora isso não possa ser garantido para todos, sobretudo em doses muito elevadas.

Os extratos de espetro largo passam por um processamento adicional para remover o THC, mantendo os restantes canabinoides e terpenos. Representam um meio-termo pragmático, que preserva os potenciais benefícios do efeito entourage e, ao mesmo tempo, responde a preocupações relacionadas com a exposição ao THC.

O isolado é a forma mais pura de canabinoide, sem quaisquer outros compostos da planta. É normalmente insípido e inodoro, o que facilita a sua incorporação noutros produtos.